Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Precipício



















Escalava
ocos da vida
por tortos
andaimes
de poder.

No cume,
sem saber,
beirava seu
P
R
E
C
I
P
Í
C
I
O
particular.

Apalpou
o clímax
da estranheza,
e até cães,
inclinados a
uma cega
fidelidade,
se furtaram
àquela
perigosa
amizade.

Só,
despencou
no vão
de sua
existência.

Uma existência
aguda.
E absurda.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Limpeza

foi ontem de tardinha
e que boa tinta tinha
no sangue dos humanos

a descoberta desse nó
deu se quando Carijó
foi coberto pelos panos

tombou um prócer de facção
frente a venda de Zé João
e à terra tornou o pó

eram dezoito e trinta
no chão havia a tinta
extraída do Carijó

que a vida teve exangue
mas não tendo bom sangue
quem houve que o sinta?

à bala feito o serviço
tudo ficara por isso:
antiga vingança de gangue

bateram foto, relatório
polícia deitou falatório
o corpo virara enguiço

"Limpe a rubra mancha
que só não se desmancha
e as puta vêm pro velório"

Um cão chega mansinho
não do trafica, do vizinho
lambe a infame passagem

desse impregnado chão
da esquina de Zé João
e vai manchando o focinho

de Carijó restou o cheiro
de seu sangue e um cruzeiro
que a polícia não levou

nem cachorro, nem Zé João
nem polícia, só podridão
foi o que, no fim, restou








sexta-feira, 21 de agosto de 2009

DEUS©

Você escutou isso?
Sim, está patenteado.
Todos os direitos são
exclusivos.
Já tinham pedido usucapião.
Coitado, nem deixaram que se manifestasse
seu tamanho desapontamento,
pois quem devia
dele ser instrumento
se vê dono e seu patrão.
O contrato? São muitos, muitos mesmo.
Na verdade, foi sequestro.
De resto, para o mínimo benefício
nos exigem sacrifício.
O dízimo só concede
a regalia de pedir.
Para obter, tem que multiplicar
a fé pelo ofertório.
Nada vira pão, mas,
na conta do bispo, já é mais de milhão.
que só não é mais
que a condenação
de humanistas ateus liberais.
Para esses,
o caldo de satanás.

Amarrado, DEUS©
não pode agir
além do limite estreitado.
Antes palavra,
hoje vive amordaçado,
não obstante
lhe queiram e empenhem tanta atenção.

No livro ele se fazia mais sagaz,
mas tem caído em cada armadilha...
Nem parece o mesmo desbocado
a desclassificar a gente mesquinha.

Hoje ele fala muito em dinheiro.
E de dinheiro travava rinha homérica,
mas para desfazer, não para juntar.
Até o aprendiz com o mestre
viram os príncipes tudo deixarem
na soleira do sétimo círculo.
Se nem o inferno tolera o ouro,
por que vale tanto pro céu?
De fato, é apenas papel,
ou nem isso.
"Doai seus bens materiais,
assim tereis sempre mais!".
Bem se vê na Mercedez,
no apartamento bacana
e nos restaurantes grã-finos
onde os filhos do bispo
jantam toda a semana
o pedaço mais sangrento
das minhas dívidas plurianuais.

DEUS© gosta de violência
se especializou em atacar
as [in]consciências frágeis,
no entanto imodestas,
a ponto de dizerem que,
parcial, até gol marca
nas pelejas de futebol.
Ele ou um dos seus donos
fanaticamente sem graça
pelo favor dEle e preferência injustificada.

A graça, é que DEUS© era um capone:
forneceu bebida a quem desanimava da festa.
Hoje não dança mais nem música pode ele ouvir.
Porque os mantras dos seus orfeões
não alcançam tal dignidade.

Como se domesticou!
Como no Circo da Fé,
repete graças ao
publiquete dominical,
revelando aos cegos
sua míope visão
da tendência Universal.

Agora, DEUS©, pela voragem atual,
escarnecido e destituído de sua antiga majestade,
cultua o bicho humano e idolatra
a bisparada selvagem.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Terra rasgada

Gente briguenta o véio Amâncio.
Não peleja com homem nem com deus.
Discute com o solo, abrindo as covas,
e mata, se mata e morre pelos seus

três fiinhos: joão, dudu e josé.
São três rebentos que mourejam
na rinha encardida e seca do sertão
por água que nuvens nunca gotejam.

Água pelo menos dava mainha,
salgada de lágrima derramada
que a sede não mata, mas perturba.

Amâncio viu o jorro da lapinha
mas a terra estava menstruada.
Como sangue, era água séria, turva.


sábado, 25 de julho de 2009

Caderno de receita

Olho pra a mesinha de centro
– Um caderno. De quem seria?
Não o reconheço, por certo,
mas foi de mulher um dia

A capa de camurça vermelha,
pouco rasgada, muito rabisco,
tem colada uma figura pequena
de guloseima e outro petisco

Abri na primeira folha, manchada,
sua leitura me agarrou curioso
e lancou-me do tempo à distância

do que escrito por mão delicada
a receita dum pão delicioso
e mais gostosuras da infância





sábado, 23 de maio de 2009

Breviário Noturno

I

Morcegos mexem mandíbulas
no sótão
guincham de gozo

II

Paredes desbotam
pombas desbotam
pombos jamais
no desbotar do dia
botas batem nas ruas batidas: téqui-téqui-téqui-téqui
alguém corre a bater o cartão
o poeta bate letras olivetti

palavras desbotam


III

Não
e nada aqui
tendo o nada
nada tenho
longe amigos
a mente amola o longe

A memória é lata de lixo
melhor esvaziar que vira moléstia

mil voltas,
salto linhas...

De novo nadas


IV

A solidão noturna é forçada
guinchos de morcegos,
cantos de galos,
gritos de gatos,
arrulhos de pombos
são nós na noite
e nada nem coisa nenhuma se faz natural


V

Esqueço calças
rezo preces esquisitas
parecem guizos de cascavel






Escrevo novo apocalipse
crivado de lapsos
apoucado de símbolos

Aqueço e enxugo gelo
suco seco
o sol separa as noites

Pétalas de uma flor
pretas, pratas, lilases
fios tinturados nas faces

Duas moedas mínimas
dois cêntimos apenas
Deus deu o troco e ficou



O menino desenhando o alfabeto
as letras crescem
criam peixes e meninos

A máquina faz barulho
o aparelho do silêncio
está com defeito

Pílulas, papéis, problemas
passas secas ao sol
nos cabelos passa pente de osso

Pássaro poetando no ar
peixe poetando no mar
uma pedra partiu o poeta


VI

Exílio da noite – sol
exílio da solidão – vênus
exílio da flor – pedra
exílio do tempo – amanhã
exílio da alegria – perda
exílio da velhice – infância
exílio da humanidade – deus
exílio de mim – outro


VII

A moça tem uma boca
a boca da moça tem dentes
massageiam mensagens
musgadas


VIII

O amanhecer já é incógnita
cada aurora engana sua noite
nas frinchas se enfaixam feixes iluminados
as ruas são suas ruínas
as cirandas infantis tornam-se sérias
carros rangem de carroças
mercancias desinteressam
num castelo penitenciário
os condenados glosam poemas
como príncipes devaneiam

o mato meteu a morada oculta
suas pontas causam cócegas
nas portas




IX

Água de chuva fez suco de bosta de morcego
se acumula no assoalho
lagartixas brancas brecam velhas moscas verdes

Papéis na mesa e girassóis fora
palavras não penetram os papéis às vezes
então colemos palavras lisas


X

O tempo se tapou
nimbos são tampas
devolvem rios em gotas
bátegas escorrem azuladas na vidraça
retratam tipos post-mortem
surgem epitáfios
poemas de remorsos
pústulas mapeiam e adensam paredes da última morada


XI

Vênus vigia a avenida
transitam estrelas
na trilha cinzelada do caos
estrelas se caiaram de cinzas
Vênus se vê irritada
acende-se no cinza


XII

O pavio queimou inteiro
esqueçam o que se foi
esqueçam a casa
esqueçam a cama
esqueçam a criança
e o estado fetal

A aurora corrompeu a madrugada infensa
esqueçam a noite
esqueçam morangos
esqueçam seios nas mãos
esqueçam cantos
e lençóis

A chuva despediu-se da moça
esqueçam a arca
esqueçam os primatas
esqueçam o plâncton
esqueçam o sopro
e o barro

As imagens também se esfarelam
esqueçam suas flores
esqueçam suas pedras
esqueçam suas borboletas
esqueçam suas ilhas
até que a dor resgate nossas lembranças


XIII

Negaram o existir da natureza
busco imagens na própria ignorância
realizo pássaros que amamentam seus filhotes
meus sapos voam solenemente
ancorados em altos telhados
contemplam os girassóis azuis
no dia que o céu tingiu-se de verde
o mar amarelou-se de medo
e os peixes pescavam homens

Minha sopa tem gengivas brancas
e madeixas de medusa
despréstimos da ilusão

Os homens querem conhecer como árvores
arvoram ignorância por saber
árvores riem e roncam ao vento
murmurador
de nossos devaneios às anciãs silvestres
elas sabem coisas remotas
seus enigmas confundem
sua dor é imensa
dor é uma coisa de quem não se presta a morrer


XIV

Faltaram feições
ficou a frieza férrea
a feiúra a fenecer
um festim de facas

Essas facas cegas
ao tempo resistem
as noites cortam os dias
retalhando-os em lanços





Os perfumes das pétalas
pruridos ficaram
nas pisadas descalços
sangram os pés nos espinhos

As moças não sabem as danças
músicas moram maçantes
doces regalam velhas moscas
que no festim fitam as mesmas máscaras

FIM do breviário.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Amarelinha


Tem céu,
tem também inferno.

A pedrinha,
lançada com fé
procura o céu
mas uma geografia perversa (parece que o Coisa-Ruim trama isso)
faz o inferno alargar
e por um largo pequeníssimo
cai o sortilégio
um pouco pra lá de onde deveria.

Aí a gente tem que pular
os pedaços marcados
coisas lindas e desejos gozosos
quedam ao lado.

Há uma pedra,
sim,
que a lançadeira tem por dever de obrigação recuperar.

O poema parece amarelinha
se jogar a palavra uma vez ou duas
longe do céu desejado, encanto não há.

Palavra-pedrinha,
o poeta tem fé que ela cumpra uma sorte,
se o poema não é de todo agrado,
pula o de que não goste,
lê só o desejado.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Céu de Maio


já desmaia
o céu de maio
silencioso e mais
íntimo se mostra
em um átimo de massa

a cor do céu
vislumbra vermelho
maquiagem cósmica
veste o vestido negro
vergado de luzes laminais

a medida desse céu
não se toma de metro
mas é tomada
pela música do
baile de marina

a luz desse céu
é de miçangas
piscam com as moças
e se espelham
nas poças

não chora o céu
maio seca a fonte
assola o lenho
resseca as ramas
ramais de fogo

machuca esse céu
lâmina amolada
amor amaro
música muda
discurso do não

céu de contradição
Foto: Andrei Barros

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Observatório

Minha astronomia

é pegar a tua mão

e observar

a dançante

constelação

girando

na imensa noite

dos teus olhos

sábado, 13 de setembro de 2008

banco de areia

em meio ao mar concreto

anil da mais alta vidraça

reflete a insolente mistura

branca e acre do banco de areia


no pulso um olhar perplexo

contando horas esvaídas

pés lépidos espalham brancura

fina de grãos esparsos de areia


a barra da sarja avante carrega

do saibro a silica escondida

fase prima do banco de areia


e tanta poeira dali removida

com grãos mais de fina finura

reflete no céu o pó que permeia


a vida fincada num banco de areia

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Originalidade larga escala

que é originalidade?

seria o levíssimo elefante
a flutuar no pensamento

ou o pássaro sem penas
pendendo do penhasco?

seria amar sem mentir
morrer por querer
enxergar os sentimentos sem hipocrisias
sem hipocrisia expor sentimentos
nascer aos oitenta e morrer pueril?

ou parar de punir o fraco
parar de querer punir o mais fraco
rejeitar que haja pecados irremissíveis
voltar a acreditar no céu -- um dia --
ainda que seja um céu de passagem e sem jardins
nada eterno ou que demore tanto?
extinguir o inferno
silenciar os cala-bocas
anunciar com alegria insuperável "estou só"?
quem sabe só você se ache
destruir as antigas virtudes?
descansar após tê-las destruído
planejar o maior ou menor sem-sentido
contanto que seja sem qualquer sentido?

originalidade será imitar os melhores?
dizer de outro jeito
-- "algo tipo assim" --
o que já disseram de tudo?

escute!
se desconfiarem de plágio
melhor ficar mudo

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Medida


Não gosto desses versos compridos
como se a vida não fosse cumprida
prefiro a palavra ligeira
e o tom de brincadeira
que a vaidade delongada
de sisudo estribilho
que de tudo que se diga
nada diz a vida
em ávida fogueira
de todo consumida
na contagem desses dias
bem poucos mal cumpridos
um resto que se viva

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Viagem da família a nenhum lugar


a típica família moderna

formou-se de modo convencional

composta, claro, do carro

de seu dono

da dona de seu dono

até que um dia

chegou o pequeno Jefinho,

que aos poucos

tornou-se de modo convencional

dono

da dona

e do dono, até o dia de

ser dono do carro

terça-feira, 1 de julho de 2008

No lodo

quase não brotam flores
nem se encontra o simples nardo
com a estampa de tuas sardas
ao pôr-do-sol
percebi quão triste estava
num vacilo, daí, derramei
lágrimas brandamente
não podendo vê-las
a fronte ao chão dobrei
e do pranto
rasgaram cicatrizes no lamaçal
no lodo somos bem mais tristes
Foto: Silke Gerstenkorn

terça-feira, 24 de junho de 2008

sonetod'encontro

certoq'vaim'encontrarvivo
indaq'nãopo'saberquando
nentenha'parentemotivo
daq'por'el'abandon'amando
intim'amigadesconhecida
'quempoucosvãod'vontad'boa
deladistan'desperdiçan'vida
sen'vê'l'ajulgampormá'pessoa
'suacas'está'sempr'aberta
co'aposento'vag'aosentrantes
q'alifican'seustempos'restantes
conten'dostratosq'l'oferta
nãofogen'convivasdes'fado
'encontr'en'q'avidapõen'd'lado

sábado, 10 de maio de 2008

Retornos

as águas do rio
sem dar aviso
chegam ao mar,
mas fogem d'oceano
na evapotranspiração
retorno indiviso
a nuvem formar
as gotas flutuam
após se despejam
e umidecem o chão
chamam o homem
de volta aonde
semeou cada grão
o mínimo rebenta
alimento à vida
qual cresce e carrega
o peso da lida
é senda
e insinuação
um dia deixa a vida a vida
e evapotranspira
retorno diviso
porém sem aviso
ao pó, seco grão

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Menina da Lata

Na mesma e sempre dura hora,
nunca se demora,
madrugadora,
a filha de Dora, agora,
barriga de fora, mãos ainda suaves e um olhar onde explode tristeza
e esconde sua vertiginosa beleza,
na vida ingrata vem catando lata numa luta tola.
Natália cata latinha
pra mais tarde comê farinha
e meia salsicha se sobrar.
Vem batendo latinha com latinha,
de coca, guaraná.
Seu saco negro é um grande chocalho,
balaio de tensões intraduzíveis:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá,
balançando lentamente o barulho de lata amassada,
alumínio mínimo da vida que passa,
que amassa
latinha
e amassa
Natália, a menina.
O homem da lata com fã mirim

Foto: Rodrigues Moura/ECOPOP

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A Sombra

A sombra
não erra a partitura,
apenas dissimula.

Cópia opaca
projeta escuridão
nada lhe escapa
cada gesto ou feição

e dança
às costas, de contramão,
a mesma dança de seu artesão.

sábado, 29 de setembro de 2007

A Nave de Lala

Lala estava pronta
mas como saber?
vinha de manso
por conta de erros acertados
em meio a berros
dados sem conta de certa de erros havidos
mas ela sabia
do momento
mês hora e dia
de consertar não sabidos erros
de três outros errados
zeros apanhados ao incerto
e vento esperto primaveril
refregou os pensamentos
culpáveis
estatelando suas manhas
na tardia manhã setembrina
lá estava Lala
sibilina
lá
desbordejando
na querência de quê
aí abandonou a nave
veio estar conosco
não nos conhecia
foi bem recebida
fora a estranheza do mundo tão vasto
como nunca havia
sido a nave
apertada mas suave
útero maternal
ela semente ali abrochada
e hoje esquecida a paquete
borbotoa Lala lis no flux
remendado da vida
regato em que medra e oscila.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Pensaréu

Não sou eu quem pensa o pensamento
mas o pensamento pensa
tudo quanto penso eu
em meu eu nesse momento e
visitam esse pensamento
as visões reinantes
dos poucos maus instantes
em que pensei que pensava eu
mas me pensava o pensamento
e o eu que me pensava agora
penso eu que nunca foi o meu.