Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Rosa faltante


O amor na realidade é o que me dói
não havia nesse campo flor alguma
nem campo havia
mesmo assim achastes encanto

Sinto saudades, saudades de tudo,
e sem argumentos falo do coração,
essa coisa que sempre tem uma coisa de menos
onde é difícil de entrar, e só o podeis com carinhos.
Nele é impossível chegar com pancadas,
ou morar sem sonhos.
Porém, se entrardes e depois sairdes, deixareis bem mais do que trouxestes.

Procurais a porta, mas não vedes fresta, nenhuma frincha,
e sem elas o coração apodrece.
Agarrai esse suave fio de luz
para com ele atravessardes as grossas paredes.
Nessa lâmina tão frágil, que não se distingue
se é luar ou o resto de um sol quase morto, intimidado,
podereis mergulhar no abismo pulsante de amor, mentiras, medos e morte.

Nesse instante percebo a rosa,
tenho-a infinitamente,
sim, tenho esta flor
num coração de pedra esfalfado.
Nele surge um império de desconfianças
cujas cores iluminam este sertão
onde cultivo minha personalidade
para não morrer antes da morte senhora.
Tento não me perder.
Tento cultivar-vos.
Tento ganhar a rosa das minhas saudades.

Sinto saudades.
Saudades imensas, generosas, saudades de tudo.



segunda-feira, 6 de abril de 2009

Céu de Maio


já desmaia
o céu de maio
silencioso e mais
íntimo se mostra
em um átimo de massa

a cor do céu
vislumbra vermelho
maquiagem cósmica
veste o vestido negro
vergado de luzes laminais

a medida desse céu
não se toma de metro
mas é tomada
pela música do
baile de marina

a luz desse céu
é de miçangas
piscam com as moças
e se espelham
nas poças

não chora o céu
maio seca a fonte
assola o lenho
resseca as ramas
ramais de fogo

machuca esse céu
lâmina amolada
amor amaro
música muda
discurso do não

céu de contradição
Foto: Andrei Barros

sábado, 4 de agosto de 2007

SOL-lilóquio


por Silvio Lourenço, setembro 2006.


Esse Sol corta essas noites
insuaves. Atrás atravessa
sem-pressa pelas praças,
do pão leveda as massas
e das moças mostra as graças.

Esse Sol indesperto madruga
moços cansados de amar,
missas de massas moventes,
desdorme trens nos dormentes,
descama o homem, o mar.

Ah, esse Sol aquece a pele,
queima toda epiderme –
perece a carne pelo verme –
desamanhece no poente
e foge desvisto da gente.

Nesse Sol sem-céu sumido,
você sem-eu-ciumado
desassoma cor-dia nublado.
Se sumo desinfeliz amando
no mundo não-sendo amado.


Foto: Andrei Barros, "Chuva, Sol e céu", em