Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Limpeza

foi ontem de tardinha
e que boa tinta tinha
no sangue dos humanos

a descoberta desse nó
deu se quando Carijó
foi coberto pelos panos

tombou um prócer de facção
frente a venda de Zé João
e à terra tornou o pó

eram dezoito e trinta
no chão havia a tinta
extraída do Carijó

que a vida teve exangue
mas não tendo bom sangue
quem houve que o sinta?

à bala feito o serviço
tudo ficara por isso:
antiga vingança de gangue

bateram foto, relatório
polícia deitou falatório
o corpo virara enguiço

"Limpe a rubra mancha
que só não se desmancha
e as puta vêm pro velório"

Um cão chega mansinho
não do trafica, do vizinho
lambe a infame passagem

desse impregnado chão
da esquina de Zé João
e vai manchando o focinho

de Carijó restou o cheiro
de seu sangue e um cruzeiro
que a polícia não levou

nem cachorro, nem Zé João
nem polícia, só podridão
foi o que, no fim, restou








sexta-feira, 21 de agosto de 2009

DEUS©

Você escutou isso?
Sim, está patenteado.
Todos os direitos são
exclusivos.
Já tinham pedido usucapião.
Coitado, nem deixaram que se manifestasse
seu tamanho desapontamento,
pois quem devia
dele ser instrumento
se vê dono e seu patrão.
O contrato? São muitos, muitos mesmo.
Na verdade, foi sequestro.
De resto, para o mínimo benefício
nos exigem sacrifício.
O dízimo só concede
a regalia de pedir.
Para obter, tem que multiplicar
a fé pelo ofertório.
Nada vira pão, mas,
na conta do bispo, já é mais de milhão.
que só não é mais
que a condenação
de humanistas ateus liberais.
Para esses,
o caldo de satanás.

Amarrado, DEUS©
não pode agir
além do limite estreitado.
Antes palavra,
hoje vive amordaçado,
não obstante
lhe queiram e empenhem tanta atenção.

No livro ele se fazia mais sagaz,
mas tem caído em cada armadilha...
Nem parece o mesmo desbocado
a desclassificar a gente mesquinha.

Hoje ele fala muito em dinheiro.
E de dinheiro travava rinha homérica,
mas para desfazer, não para juntar.
Até o aprendiz com o mestre
viram os príncipes tudo deixarem
na soleira do sétimo círculo.
Se nem o inferno tolera o ouro,
por que vale tanto pro céu?
De fato, é apenas papel,
ou nem isso.
"Doai seus bens materiais,
assim tereis sempre mais!".
Bem se vê na Mercedez,
no apartamento bacana
e nos restaurantes grã-finos
onde os filhos do bispo
jantam toda a semana
o pedaço mais sangrento
das minhas dívidas plurianuais.

DEUS© gosta de violência
se especializou em atacar
as [in]consciências frágeis,
no entanto imodestas,
a ponto de dizerem que,
parcial, até gol marca
nas pelejas de futebol.
Ele ou um dos seus donos
fanaticamente sem graça
pelo favor dEle e preferência injustificada.

A graça, é que DEUS© era um capone:
forneceu bebida a quem desanimava da festa.
Hoje não dança mais nem música pode ele ouvir.
Porque os mantras dos seus orfeões
não alcançam tal dignidade.

Como se domesticou!
Como no Circo da Fé,
repete graças ao
publiquete dominical,
revelando aos cegos
sua míope visão
da tendência Universal.

Agora, DEUS©, pela voragem atual,
escarnecido e destituído de sua antiga majestade,
cultua o bicho humano e idolatra
a bisparada selvagem.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Esquina da Alegria Ausente

Quem chegará
incólume
à esquina da alegria ausente
se todo ano é carnaval?
Cada passo
deixa uma força na avenida
De cada sorriso
vejo um arremedo
do que não é o folião
espatifando. No chão
pisado percebe-se
as iras magoadas
largadas em meio aos repiques
durante os quatro dias
no caminho da esquina
ausente de alegrias.
Quarta-feira é dia
e todas elas se levantam
ajuntam amigas
e correm buscar
seus legítimos donos,
alguns caídos na esquina da alegria ausente,
a última do desfile.
Os rancores nem passam
na candelária encontrar
peito que os abrigue.


sábado, 10 de fevereiro de 2007

Ainda religião

A fé já foi bem mais transcendental outrora. Vivemos o tempo da mais vertiginosa mercantilização do sagrado.

Penso que o sagrado não tem preço. Ao menos não devia tê-lo. Por isso tento viver de modo mais comezinho diante do numinoso. Me farto do humano, busco a humanidade (que deriva de humus, a matéria mais chã e deteriorada, que recobre o solo) para não me avultar.

A alegria que carrego vem de uma inexplicável consideração de que o sagrado se esconde nas franjas da humanidade, nos recantos impensáveis das nossas fragilidades, as quais nós nos empenhamos constantemente para escondê-las pela dissimulação.

Na dissimulação, gêmea da simulação, nasce a arte. De modo que arte, religião e ciência são filhas "de um mesmo deus fugaz". Mas isso é um outro assunto...

Separada de suas irmãs, a religião, a cada dia, se esquece de sua identidade e porfia por granjear seguidores. Já não luta por se aproximar do misterium sanctorum.

Roger Bastide dizia que não se pode exorcizar os fantasmas de nossa religiosidade. Na realização poética, eles renascem mesmo a contragosto. Difícil discordar.

Onde será que habitam os meus demônios? Longe de dogmas, a arte – e por extensão o poema – perde todo e qualquer valor se for proselitista. Ela vive, somente, desse misterium sanctorum. O próprio Fernando Pessoa, em sua Nota Preliminar a Mensagem, expôs que para se entender os símbolos é mister cinco qualidades ou condições, das quais a

quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo
FP, OP, Mensagem, "Nota Preliminar", p. 69.

Segue-se Catedral, poema escrito em 2006, após visitar diversas catedrais em cidades como Montevidéu, onde me demorei observando A adoração dos pastores, reprodução 1:1, feita por um aluno, do original do pintor e mestre Gerardo delle Notti, ou Gerard van Honthorst, que admirava a Caravaggio.


Catedral


A donzela de grã-família
ajoelha-se pudente
lança seu olhar longo e pungente
mirando o altar da virgem santa
Sua piedade é tanta
e da beata carola,
que na catedral mora,
a virgem a tem por filha.

E ali compartilha
do olhar longo e pungente
um homem presente

– não é boa gente –

supõe a carola,
no morro ele mora,
mas é penitente,
não da virgem santa,
à donzela adora, e
num gesto ensaiado,
se vira de lado,
olhando nos olhos pungentes,
de sua virgem adorada.
Apeia o chapéu,
de todo respeito,
bate a mão no peito,
ajoelha-se com a amada.

Na fria catedral,
deseja a donzela a branca eternidade,
ao mirar a virgem adornada,
de branco vestida, de ouro cravada, num manto envolvida,
quando
um sussurro sintético, acanhado,
interrompe a doce calma,
no lúzio enfumaçado
frente ao trono episcopal,
seu pobre devoto:
“a virtude que tens
excede à da virgem
venero vossa imagem”.


Empalidecida,
de frio suor molhada,
derrama a donzela
lágrima vermelhada,
o lenço manchado

– sudário de um momento.