Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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sábado, 25 de julho de 2009

Caderno de receita

Olho pra a mesinha de centro
– Um caderno. De quem seria?
Não o reconheço, por certo,
mas foi de mulher um dia

A capa de camurça vermelha,
pouco rasgada, muito rabisco,
tem colada uma figura pequena
de guloseima e outro petisco

Abri na primeira folha, manchada,
sua leitura me agarrou curioso
e lancou-me do tempo à distância

do que escrito por mão delicada
a receita dum pão delicioso
e mais gostosuras da infância





quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Observação


No entanto,
ao falar de amores...

observo muito
mesmo sinto
a incomôda presença
de dores que me vêm
mais que a ausência

de flores que minto

perco me em mil transes
lavores inquietantes
resumos moles rasgados
de amores passados

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Observatório

Minha astronomia

é pegar a tua mão

e observar

a dançante

constelação

girando

na imensa noite

dos teus olhos

terça-feira, 1 de julho de 2008

No lodo

quase não brotam flores
nem se encontra o simples nardo
com a estampa de tuas sardas
ao pôr-do-sol
percebi quão triste estava
num vacilo, daí, derramei
lágrimas brandamente
não podendo vê-las
a fronte ao chão dobrei
e do pranto
rasgaram cicatrizes no lamaçal
no lodo somos bem mais tristes
Foto: Silke Gerstenkorn

sábado, 10 de maio de 2008

Retornos

as águas do rio
sem dar aviso
chegam ao mar,
mas fogem d'oceano
na evapotranspiração
retorno indiviso
a nuvem formar
as gotas flutuam
após se despejam
e umidecem o chão
chamam o homem
de volta aonde
semeou cada grão
o mínimo rebenta
alimento à vida
qual cresce e carrega
o peso da lida
é senda
e insinuação
um dia deixa a vida a vida
e evapotranspira
retorno diviso
porém sem aviso
ao pó, seco grão

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Pensaréu

Não sou eu quem pensa o pensamento
mas o pensamento pensa
tudo quanto penso eu
em meu eu nesse momento e
visitam esse pensamento
as visões reinantes
dos poucos maus instantes
em que pensei que pensava eu
mas me pensava o pensamento
e o eu que me pensava agora
penso eu que nunca foi o meu.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Historieta

Colher palavras
para contar
uma espécie de dor.
Escolher um tema
com que mostrar
belas cenas de horror.
Fugir do problema
e adentrar na guerra
em busca da paz.
Saltar o mundo
e permanecer
em estreito lugar.
Perder a vista
e enxergar
a face da escuridão.
Dançar a música
que um dia jamais
pudesse ser tocada.
Gritar gemidos
que somente se ouvem
no vácuo inconsciente.
Plantar no jardim
estéril semente
e ignorar da árvore a solidão.
Comprar supérfluas utilidades
e apaziguar
a cupidez insaciável.
Enfim nascer
como primeiro ato
da historieta de morte.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

O Homem e a Sopa

Criança gosta de carne
mas o homem lhe deu sopa
e no caldo distribuído
a carne era bem pouca.

Cenoura quase não havia
sequer uma batatinha
o pasto parecia pasto
dado a porco e galinha.

O homem ceva a criança
como as crias na fazenda
vai enchendo-lhes a pança

Do bagaço da moenda
mesmo tendo em abastança
muita carne em sua tenda.


Leia aqui (para assinantes da FSP e uol).


quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Desdesejo

Desejar, sentir desejo
aumentar o desejo sentido
então desejar mesmo
o fim do sentimento
o infinito momento
de depurar o desejo
desejar poder depurar
o desejo de seus riscos
sentir desejo sem riscos
arriscar-se a não ter desejos
agravar a íntima fonte
de desejar para calar
os anseios implícitos,
os mais fortes desejos,
matar a sede de matar,
não suprir, suprimir
na própria fonte do desejar
angustiando o desejo
de toda forma de desejar
até o desejo não poder
ser mais o desejo senão
o desejo de versejar.
.
.
Imagem: fac-símile de "A Palavra", CDA.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A flor e a pedra

Havia uma flor em sua mão
mas pedra em seu olhar,

rocha úmida,
lavada
no rebate de ondas daquela tristeza feroz.
Pôs a flor acima desse mar.
A lis pairava em seu cabelo como estrela única em noite escura.
Ela sorria. Ato nervoso que lhe era o manto possível no recobrimento de mágoas.
Muitas havia como a areia,
que impiedosamente é coberta pelo véu das ondas na praia.
Sorria assim. Misteriosa, nervosa e freqüentemente sorria.
Percebeu na flor debilidade, porém havia beleza.
Quis fragilizar-se, mas era ainda rocha.
Quanto mais lavava de sorrisos nervosos o seu olhar, mais o sentia se enegrecer de incrustações.
A flor foi perdendo o sentido de ficar ali,
pois não podia viver naquela rigidez
que aumentava a cada sorrir.
Até se desgarrar e ser levada para longe
pelas ondas que a rebotavam sobre seu úmido olhar.


Foto: Mutilação 2, de Manuel Gonçalves