Epígrafe Provisória

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Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Desdesejo

Desejar, sentir desejo
aumentar o desejo sentido
então desejar mesmo
o fim do sentimento
o infinito momento
de depurar o desejo
desejar poder depurar
o desejo de seus riscos
sentir desejo sem riscos
arriscar-se a não ter desejos
agravar a íntima fonte
de desejar para calar
os anseios implícitos,
os mais fortes desejos,
matar a sede de matar,
não suprir, suprimir
na própria fonte do desejar
angustiando o desejo
de toda forma de desejar
até o desejo não poder
ser mais o desejo senão
o desejo de versejar.
.
.
Imagem: fac-símile de "A Palavra", CDA.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Partos

Comecemos
pelo amor início
de tudo palavras
amadas
amantes
amanteigadas
guardadas dadas
saídas doadas sádicas
sofridas fraturadas feridas
fechadas a chave em vidros
em vasos gravadas a mão em mãos
em madeira maduras demoradas morando
nas mentes nas matas mitos motes
sementes sepultadas somente pisadas
pesadas piladas
peneiradas pendidas pulsadas
plastificadas petrificadas plasmadas
são plânctons planetas portas pedradas
pele lua lei lima lama mel lona anelo nulidade
hálito alento lutas letras lamentos tormentos momentos
inventos ventos sonetos sonatas sentimentos sortimentos
rompimentos rapina reparo paragem aragem coragem voragem
passagem passeio pinça punção função fundição fenda fado favor
favo fazer a palavra fincar novas raízes ocultas invisíveis violentas
vender valores venais voltar à voz vivaz voraz veloz muda e mordaz.

sábado, 2 de junho de 2007

O poema que escrevo

por Silvio Lourenço em 2/6/2007

O poema que escrevo
escrevi
porque a máquina do mundo eu vi

O poema que escrevo
vou escrevendo
porque belo belo estou lendo

O poema que escrevo
escrevo primeiro
sobre a atual vergonha de ser brasileiro

O poema que escrevo
escrevo na terra
aos senhores da ocasião e da guerra

O poema que escrevo
é escrita morta
que inveja certa pronúncia torta

O poema que escrevo
quem escreve? um caramujo
que reescreve o poema sujo

O poema que escrevo
escrevia
chega de poesia!

O poema que escrevo
não o escrevi muito bom
por isso é meu, e não de Drummond

O poema que escrevo
não o escrevi de primeira
sempre consulto alguns de Bandeira

O poema que escrevo
não o escrevi sepultando uma semana
muito menos um século, como fez Sant’Anna

O poema que escrevo
não o escrevi só por desejar
um dia escrever como escreve Nejar
ou como Carpinejar
ou, talvez, Ferreira Gullar
como Augusto de Campos nem cheguei a pensar

O poema que escrevo
escrevi agradecido
a todo poeta famoso ou mesmo desconhecido