Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Observatório

Minha astronomia

é pegar a tua mão

e observar

a dançante

constelação

girando

na imensa noite

dos teus olhos

sábado, 13 de setembro de 2008

banco de areia

em meio ao mar concreto

anil da mais alta vidraça

reflete a insolente mistura

branca e acre do banco de areia


no pulso um olhar perplexo

contando horas esvaídas

pés lépidos espalham brancura

fina de grãos esparsos de areia


a barra da sarja avante carrega

do saibro a silica escondida

fase prima do banco de areia


e tanta poeira dali removida

com grãos mais de fina finura

reflete no céu o pó que permeia


a vida fincada num banco de areia

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Menina da Lata

Na mesma e sempre dura hora,
nunca se demora,
madrugadora,
a filha de Dora, agora,
barriga de fora, mãos ainda suaves e um olhar onde explode tristeza
e esconde sua vertiginosa beleza,
na vida ingrata vem catando lata numa luta tola.
Natália cata latinha
pra mais tarde comê farinha
e meia salsicha se sobrar.
Vem batendo latinha com latinha,
de coca, guaraná.
Seu saco negro é um grande chocalho,
balaio de tensões intraduzíveis:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá,
balançando lentamente o barulho de lata amassada,
alumínio mínimo da vida que passa,
que amassa
latinha
e amassa
Natália, a menina.
O homem da lata com fã mirim

Foto: Rodrigues Moura/ECOPOP

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A flor e a pedra

Havia uma flor em sua mão
mas pedra em seu olhar,

rocha úmida,
lavada
no rebate de ondas daquela tristeza feroz.
Pôs a flor acima desse mar.
A lis pairava em seu cabelo como estrela única em noite escura.
Ela sorria. Ato nervoso que lhe era o manto possível no recobrimento de mágoas.
Muitas havia como a areia,
que impiedosamente é coberta pelo véu das ondas na praia.
Sorria assim. Misteriosa, nervosa e freqüentemente sorria.
Percebeu na flor debilidade, porém havia beleza.
Quis fragilizar-se, mas era ainda rocha.
Quanto mais lavava de sorrisos nervosos o seu olhar, mais o sentia se enegrecer de incrustações.
A flor foi perdendo o sentido de ficar ali,
pois não podia viver naquela rigidez
que aumentava a cada sorrir.
Até se desgarrar e ser levada para longe
pelas ondas que a rebotavam sobre seu úmido olhar.


Foto: Mutilação 2, de Manuel Gonçalves

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Mostarda

Conheci
no fundo molhado dos seus olhos
um fio de esperança cobreado.
Era um tipo de alegria.

Seu olhar ainda refletia
uma queixa antiga e esparramada
e pousou detidamente
naquela mancha de mostarda.
Ela interrompia uma listra
da minha camisa col à l'italienne.

O tempero caiu amarelo e úmido
quando você esmagava
sua metade de pão
durante o beijo faminto.

* Pintura: Sigmar Polke, Measuring Clothes (1994)

terça-feira, 10 de julho de 2007

Hobsbawm

por Silvio Lourenço, 10/7/2007

Mal.
Começam os atos assim.
Mil triunfos
trituram ratos,
brinca a ciência natural.

Imprevistos triunfam
em mil tragédias
cada uma oferece
duzentos mil sacrifícios.

Esquisito haver esperança
misto à inquietação.

Observam através do orifício dessa última porta.

Quem alcançou a saída para nos ver?