Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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sábado, 23 de maio de 2009

Breviário Noturno

I

Morcegos mexem mandíbulas
no sótão
guincham de gozo

II

Paredes desbotam
pombas desbotam
pombos jamais
no desbotar do dia
botas batem nas ruas batidas: téqui-téqui-téqui-téqui
alguém corre a bater o cartão
o poeta bate letras olivetti

palavras desbotam


III

Não
e nada aqui
tendo o nada
nada tenho
longe amigos
a mente amola o longe

A memória é lata de lixo
melhor esvaziar que vira moléstia

mil voltas,
salto linhas...

De novo nadas


IV

A solidão noturna é forçada
guinchos de morcegos,
cantos de galos,
gritos de gatos,
arrulhos de pombos
são nós na noite
e nada nem coisa nenhuma se faz natural


V

Esqueço calças
rezo preces esquisitas
parecem guizos de cascavel






Escrevo novo apocalipse
crivado de lapsos
apoucado de símbolos

Aqueço e enxugo gelo
suco seco
o sol separa as noites

Pétalas de uma flor
pretas, pratas, lilases
fios tinturados nas faces

Duas moedas mínimas
dois cêntimos apenas
Deus deu o troco e ficou



O menino desenhando o alfabeto
as letras crescem
criam peixes e meninos

A máquina faz barulho
o aparelho do silêncio
está com defeito

Pílulas, papéis, problemas
passas secas ao sol
nos cabelos passa pente de osso

Pássaro poetando no ar
peixe poetando no mar
uma pedra partiu o poeta


VI

Exílio da noite – sol
exílio da solidão – vênus
exílio da flor – pedra
exílio do tempo – amanhã
exílio da alegria – perda
exílio da velhice – infância
exílio da humanidade – deus
exílio de mim – outro


VII

A moça tem uma boca
a boca da moça tem dentes
massageiam mensagens
musgadas


VIII

O amanhecer já é incógnita
cada aurora engana sua noite
nas frinchas se enfaixam feixes iluminados
as ruas são suas ruínas
as cirandas infantis tornam-se sérias
carros rangem de carroças
mercancias desinteressam
num castelo penitenciário
os condenados glosam poemas
como príncipes devaneiam

o mato meteu a morada oculta
suas pontas causam cócegas
nas portas




IX

Água de chuva fez suco de bosta de morcego
se acumula no assoalho
lagartixas brancas brecam velhas moscas verdes

Papéis na mesa e girassóis fora
palavras não penetram os papéis às vezes
então colemos palavras lisas


X

O tempo se tapou
nimbos são tampas
devolvem rios em gotas
bátegas escorrem azuladas na vidraça
retratam tipos post-mortem
surgem epitáfios
poemas de remorsos
pústulas mapeiam e adensam paredes da última morada


XI

Vênus vigia a avenida
transitam estrelas
na trilha cinzelada do caos
estrelas se caiaram de cinzas
Vênus se vê irritada
acende-se no cinza


XII

O pavio queimou inteiro
esqueçam o que se foi
esqueçam a casa
esqueçam a cama
esqueçam a criança
e o estado fetal

A aurora corrompeu a madrugada infensa
esqueçam a noite
esqueçam morangos
esqueçam seios nas mãos
esqueçam cantos
e lençóis

A chuva despediu-se da moça
esqueçam a arca
esqueçam os primatas
esqueçam o plâncton
esqueçam o sopro
e o barro

As imagens também se esfarelam
esqueçam suas flores
esqueçam suas pedras
esqueçam suas borboletas
esqueçam suas ilhas
até que a dor resgate nossas lembranças


XIII

Negaram o existir da natureza
busco imagens na própria ignorância
realizo pássaros que amamentam seus filhotes
meus sapos voam solenemente
ancorados em altos telhados
contemplam os girassóis azuis
no dia que o céu tingiu-se de verde
o mar amarelou-se de medo
e os peixes pescavam homens

Minha sopa tem gengivas brancas
e madeixas de medusa
despréstimos da ilusão

Os homens querem conhecer como árvores
arvoram ignorância por saber
árvores riem e roncam ao vento
murmurador
de nossos devaneios às anciãs silvestres
elas sabem coisas remotas
seus enigmas confundem
sua dor é imensa
dor é uma coisa de quem não se presta a morrer


XIV

Faltaram feições
ficou a frieza férrea
a feiúra a fenecer
um festim de facas

Essas facas cegas
ao tempo resistem
as noites cortam os dias
retalhando-os em lanços





Os perfumes das pétalas
pruridos ficaram
nas pisadas descalços
sangram os pés nos espinhos

As moças não sabem as danças
músicas moram maçantes
doces regalam velhas moscas
que no festim fitam as mesmas máscaras

FIM do breviário.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Amarelinha


Tem céu,
tem também inferno.

A pedrinha,
lançada com fé
procura o céu
mas uma geografia perversa (parece que o Coisa-Ruim trama isso)
faz o inferno alargar
e por um largo pequeníssimo
cai o sortilégio
um pouco pra lá de onde deveria.

Aí a gente tem que pular
os pedaços marcados
coisas lindas e desejos gozosos
quedam ao lado.

Há uma pedra,
sim,
que a lançadeira tem por dever de obrigação recuperar.

O poema parece amarelinha
se jogar a palavra uma vez ou duas
longe do céu desejado, encanto não há.

Palavra-pedrinha,
o poeta tem fé que ela cumpra uma sorte,
se o poema não é de todo agrado,
pula o de que não goste,
lê só o desejado.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Originalidade larga escala

que é originalidade?

seria o levíssimo elefante
a flutuar no pensamento

ou o pássaro sem penas
pendendo do penhasco?

seria amar sem mentir
morrer por querer
enxergar os sentimentos sem hipocrisias
sem hipocrisia expor sentimentos
nascer aos oitenta e morrer pueril?

ou parar de punir o fraco
parar de querer punir o mais fraco
rejeitar que haja pecados irremissíveis
voltar a acreditar no céu -- um dia --
ainda que seja um céu de passagem e sem jardins
nada eterno ou que demore tanto?
extinguir o inferno
silenciar os cala-bocas
anunciar com alegria insuperável "estou só"?
quem sabe só você se ache
destruir as antigas virtudes?
descansar após tê-las destruído
planejar o maior ou menor sem-sentido
contanto que seja sem qualquer sentido?

originalidade será imitar os melhores?
dizer de outro jeito
-- "algo tipo assim" --
o que já disseram de tudo?

escute!
se desconfiarem de plágio
melhor ficar mudo

sábado, 2 de junho de 2007

O poema que escrevo

por Silvio Lourenço em 2/6/2007

O poema que escrevo
escrevi
porque a máquina do mundo eu vi

O poema que escrevo
vou escrevendo
porque belo belo estou lendo

O poema que escrevo
escrevo primeiro
sobre a atual vergonha de ser brasileiro

O poema que escrevo
escrevo na terra
aos senhores da ocasião e da guerra

O poema que escrevo
é escrita morta
que inveja certa pronúncia torta

O poema que escrevo
quem escreve? um caramujo
que reescreve o poema sujo

O poema que escrevo
escrevia
chega de poesia!

O poema que escrevo
não o escrevi muito bom
por isso é meu, e não de Drummond

O poema que escrevo
não o escrevi de primeira
sempre consulto alguns de Bandeira

O poema que escrevo
não o escrevi sepultando uma semana
muito menos um século, como fez Sant’Anna

O poema que escrevo
não o escrevi só por desejar
um dia escrever como escreve Nejar
ou como Carpinejar
ou, talvez, Ferreira Gullar
como Augusto de Campos nem cheguei a pensar

O poema que escrevo
escrevi agradecido
a todo poeta famoso ou mesmo desconhecido