Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Amarelinha


Tem céu,
tem também inferno.

A pedrinha,
lançada com fé
procura o céu
mas uma geografia perversa (parece que o Coisa-Ruim trama isso)
faz o inferno alargar
e por um largo pequeníssimo
cai o sortilégio
um pouco pra lá de onde deveria.

Aí a gente tem que pular
os pedaços marcados
coisas lindas e desejos gozosos
quedam ao lado.

Há uma pedra,
sim,
que a lançadeira tem por dever de obrigação recuperar.

O poema parece amarelinha
se jogar a palavra uma vez ou duas
longe do céu desejado, encanto não há.

Palavra-pedrinha,
o poeta tem fé que ela cumpra uma sorte,
se o poema não é de todo agrado,
pula o de que não goste,
lê só o desejado.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Originalidade larga escala

que é originalidade?

seria o levíssimo elefante
a flutuar no pensamento

ou o pássaro sem penas
pendendo do penhasco?

seria amar sem mentir
morrer por querer
enxergar os sentimentos sem hipocrisias
sem hipocrisia expor sentimentos
nascer aos oitenta e morrer pueril?

ou parar de punir o fraco
parar de querer punir o mais fraco
rejeitar que haja pecados irremissíveis
voltar a acreditar no céu -- um dia --
ainda que seja um céu de passagem e sem jardins
nada eterno ou que demore tanto?
extinguir o inferno
silenciar os cala-bocas
anunciar com alegria insuperável "estou só"?
quem sabe só você se ache
destruir as antigas virtudes?
descansar após tê-las destruído
planejar o maior ou menor sem-sentido
contanto que seja sem qualquer sentido?

originalidade será imitar os melhores?
dizer de outro jeito
-- "algo tipo assim" --
o que já disseram de tudo?

escute!
se desconfiarem de plágio
melhor ficar mudo

sábado, 10 de maio de 2008

Retornos

as águas do rio
sem dar aviso
chegam ao mar,
mas fogem d'oceano
na evapotranspiração
retorno indiviso
a nuvem formar
as gotas flutuam
após se despejam
e umidecem o chão
chamam o homem
de volta aonde
semeou cada grão
o mínimo rebenta
alimento à vida
qual cresce e carrega
o peso da lida
é senda
e insinuação
um dia deixa a vida a vida
e evapotranspira
retorno diviso
porém sem aviso
ao pó, seco grão

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Menina da Lata

Na mesma e sempre dura hora,
nunca se demora,
madrugadora,
a filha de Dora, agora,
barriga de fora, mãos ainda suaves e um olhar onde explode tristeza
e esconde sua vertiginosa beleza,
na vida ingrata vem catando lata numa luta tola.
Natália cata latinha
pra mais tarde comê farinha
e meia salsicha se sobrar.
Vem batendo latinha com latinha,
de coca, guaraná.
Seu saco negro é um grande chocalho,
balaio de tensões intraduzíveis:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá,
balançando lentamente o barulho de lata amassada,
alumínio mínimo da vida que passa,
que amassa
latinha
e amassa
Natália, a menina.
O homem da lata com fã mirim

Foto: Rodrigues Moura/ECOPOP

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A Sombra

A sombra
não erra a partitura,
apenas dissimula.

Cópia opaca
projeta escuridão
nada lhe escapa
cada gesto ou feição

e dança
às costas, de contramão,
a mesma dança de seu artesão.

sábado, 29 de setembro de 2007

A Nave de Lala

Lala estava pronta
mas como saber?
vinha de manso
por conta de erros acertados
em meio a berros
dados sem conta de certa de erros havidos
mas ela sabia
do momento
mês hora e dia
de consertar não sabidos erros
de três outros errados
zeros apanhados ao incerto
e vento esperto primaveril
refregou os pensamentos
culpáveis
estatelando suas manhas
na tardia manhã setembrina
lá estava Lala
sibilina
lá
desbordejando
na querência de quê
aí abandonou a nave
veio estar conosco
não nos conhecia
foi bem recebida
fora a estranheza do mundo tão vasto
como nunca havia
sido a nave
apertada mas suave
útero maternal
ela semente ali abrochada
e hoje esquecida a paquete
borbotoa Lala lis no flux
remendado da vida
regato em que medra e oscila.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A flor e a pedra

Havia uma flor em sua mão
mas pedra em seu olhar,

rocha úmida,
lavada
no rebate de ondas daquela tristeza feroz.
Pôs a flor acima desse mar.
A lis pairava em seu cabelo como estrela única em noite escura.
Ela sorria. Ato nervoso que lhe era o manto possível no recobrimento de mágoas.
Muitas havia como a areia,
que impiedosamente é coberta pelo véu das ondas na praia.
Sorria assim. Misteriosa, nervosa e freqüentemente sorria.
Percebeu na flor debilidade, porém havia beleza.
Quis fragilizar-se, mas era ainda rocha.
Quanto mais lavava de sorrisos nervosos o seu olhar, mais o sentia se enegrecer de incrustações.
A flor foi perdendo o sentido de ficar ali,
pois não podia viver naquela rigidez
que aumentava a cada sorrir.
Até se desgarrar e ser levada para longe
pelas ondas que a rebotavam sobre seu úmido olhar.


Foto: Mutilação 2, de Manuel Gonçalves

sábado, 4 de agosto de 2007

SOL-lilóquio


por Silvio Lourenço, setembro 2006.


Esse Sol corta essas noites
insuaves. Atrás atravessa
sem-pressa pelas praças,
do pão leveda as massas
e das moças mostra as graças.

Esse Sol indesperto madruga
moços cansados de amar,
missas de massas moventes,
desdorme trens nos dormentes,
descama o homem, o mar.

Ah, esse Sol aquece a pele,
queima toda epiderme –
perece a carne pelo verme –
desamanhece no poente
e foge desvisto da gente.

Nesse Sol sem-céu sumido,
você sem-eu-ciumado
desassoma cor-dia nublado.
Se sumo desinfeliz amando
no mundo não-sendo amado.


Foto: Andrei Barros, "Chuva, Sol e céu", em

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Das mãos

Silvio Lourenço, em 9/6/2007



Com sangue escorrendo
de minhas mãos
amanheço escrevendo
esse poema.
De vermelho
pintando um coração
e rubra rosa
manchando essa pena.

As manchas
escorrendo até o chão
duas poças embaciadas
num dilema.
Dois amores
embatendo-se pelo pão
e rubro cálice
vertendo nesta cena.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Pendente

por Silvio Lourenço, em 14/02/2007


A correntinha
deitou sobre meu pulso
com o peso da cruz pendente
e o súplice olhar
de quem a vendia.


Suplicância
oculta pelo ray-ban
mas viva em sua voz
é a mesma simulada
no cruzeiro pendente.


O cristo marcado
mercado de sua cruz
a ilusão dos desejos
os desejos de ilusão
todos pendentes então.


Se quase comprei a corrente
mercado ficou pendente.