Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Desdesejo

Desejar, sentir desejo
aumentar o desejo sentido
então desejar mesmo
o fim do sentimento
o infinito momento
de depurar o desejo
desejar poder depurar
o desejo de seus riscos
sentir desejo sem riscos
arriscar-se a não ter desejos
agravar a íntima fonte
de desejar para calar
os anseios implícitos,
os mais fortes desejos,
matar a sede de matar,
não suprir, suprimir
na própria fonte do desejar
angustiando o desejo
de toda forma de desejar
até o desejo não poder
ser mais o desejo senão
o desejo de versejar.
.
.
Imagem: fac-símile de "A Palavra", CDA.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Adoniran, um mito de SP

Admiro o samba paulistano. Adoniran Barbosa, além de sua genialidade, consagrou um estilo tão simples, oposto ao rebuscamento no trato com a palavra, composto pela fala nua, com todas as suas trocas fonéticas: Ernesto/Arnesto, fomos/fumo etc.

Desse modo, manifesta o modo despojado e direto que essa cidade reclama aos seus moradores. A riqueza cultural de SP passa por esse samba que retrata as dores que moram de aluguel no peito do paulistano.







Há uma importância singular e didática nessa manifestação cultural. Ela ensina a admirar e amar uma cidade repleta de contradições, a qual reúne no mesmo instante o luxo e o lixo, a linguagem sofisticada da poesia concretista e a popular do samba, o megaempresário e o camelô, o ódio e o amor. O paulistano samba e contempla, ri e geme, vive e morre no samba de São Paulo.

sábado, 2 de junho de 2007

O poema que escrevo

por Silvio Lourenço em 2/6/2007

O poema que escrevo
escrevi
porque a máquina do mundo eu vi

O poema que escrevo
vou escrevendo
porque belo belo estou lendo

O poema que escrevo
escrevo primeiro
sobre a atual vergonha de ser brasileiro

O poema que escrevo
escrevo na terra
aos senhores da ocasião e da guerra

O poema que escrevo
é escrita morta
que inveja certa pronúncia torta

O poema que escrevo
quem escreve? um caramujo
que reescreve o poema sujo

O poema que escrevo
escrevia
chega de poesia!

O poema que escrevo
não o escrevi muito bom
por isso é meu, e não de Drummond

O poema que escrevo
não o escrevi de primeira
sempre consulto alguns de Bandeira

O poema que escrevo
não o escrevi sepultando uma semana
muito menos um século, como fez Sant’Anna

O poema que escrevo
não o escrevi só por desejar
um dia escrever como escreve Nejar
ou como Carpinejar
ou, talvez, Ferreira Gullar
como Augusto de Campos nem cheguei a pensar

O poema que escrevo
escrevi agradecido
a todo poeta famoso ou mesmo desconhecido