Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Rosa faltante


O amor na realidade é o que me dói
não havia nesse campo flor alguma
nem campo havia
mesmo assim achastes encanto

Sinto saudades, saudades de tudo,
e sem argumentos falo do coração,
essa coisa que sempre tem uma coisa de menos
onde é difícil de entrar, e só o podeis com carinhos.
Nele é impossível chegar com pancadas,
ou morar sem sonhos.
Porém, se entrardes e depois sairdes, deixareis bem mais do que trouxestes.

Procurais a porta, mas não vedes fresta, nenhuma frincha,
e sem elas o coração apodrece.
Agarrai esse suave fio de luz
para com ele atravessardes as grossas paredes.
Nessa lâmina tão frágil, que não se distingue
se é luar ou o resto de um sol quase morto, intimidado,
podereis mergulhar no abismo pulsante de amor, mentiras, medos e morte.

Nesse instante percebo a rosa,
tenho-a infinitamente,
sim, tenho esta flor
num coração de pedra esfalfado.
Nele surge um império de desconfianças
cujas cores iluminam este sertão
onde cultivo minha personalidade
para não morrer antes da morte senhora.
Tento não me perder.
Tento cultivar-vos.
Tento ganhar a rosa das minhas saudades.

Sinto saudades.
Saudades imensas, generosas, saudades de tudo.



terça-feira, 10 de julho de 2007

Fim dos Imperadores

por Silvio Lourenço, 10/7/2007.

Divirto-me
e possuo mais rituais e informação
que imperadores de 1914.

Nicolai, adeus ao diário.

Atravessei em poucas semanas
mares de Bonaparte.
Três vezes mais, Napoleão.

Agora, já tomaram a bastilha.

Apertando um só botão
dou ordens a uma gueixa no oriente.
Nenhum oceano me detém.

Akira deixaria Hiroshima em 1944. Ficou.

Por que não se celebra
as divindades modernas?
São bêbadas e estéreis.

Engels também se assustou. A bomba derrubou apenas não-combatentes.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Éter

>> neste artigo >>

Aproximadamente um terço de todo o nosso tempo passamos dormindo. Esse período, longe de ser perdido, é bastante fértil aos sonhos. Não sei explicar esses fenômenos de pouca definição. Se bem me parece, Freud deu razões da ocorrência dos sonhos e até explicou algumas tipificações, porém não pôde nem de longe resolver todas as especulações que surgem em torno desta fantástica realidade.

A nossa miséria é que os sonhos têm o poder de nos perturbar. Quando intensos demais, provocam um delírio fremilúcilo, no qual vislumbramos sombras e dissipações.

Muitas das vezes os sonhos não retornam. Abandonando-nos, deixam-nos sem razões para a razão. Considero o sonho par da arte e da religião, mães mais férteis das visões oníricas. Dante, em A Divina Comédia, arquitetou os sonhos mais terríficos que o ser humano já sofreu, fruto do descompasso entre o paraíso desejado e o inferno que se assenhora do viajor e o envolve em espessa treva: "Nel mezzo del cammin di nostra vita/ mi ritrovai per una selva oscura/ ché la diritta via era smarrita". Cervantes fez da utopia do tradicional mundo cavaleiresco o sonho e a ruína de Dom Quixote, cuja trajetória, embalada por ideais ultrapassados que sistematicamente foram descartados pela realidade moderna, levou-o a sucumbir sem jamais poder desfrutar de seus ideais, a não ser nos momentos – e foram tantos – de entrega aos seus devaneios. Mas se o sonho confunde-se com loucura, tratamos de negá-lo em algum momento:

"-Perdóname, amigo, de la ocasión que te he dado de parecer loco como yo, haciéndote caer en el error en que yo he caído, de que hubo y hay caballeros andantes en el mundo."

É nos sonhos que encontramos o nosso eu mais primitivo e ao mesmo tempo nos perdemos totalmente em relação ao mundo de ditames que nos enlaça cotidianamente. Quem se lança ávido nessa diretriz possivelmente não colherá aquilo que busca, exceto a própria busca.

Minha amiga e incisiva cronista Amanda Osti deixou-nos o conto Pó-de-arroz, que dialoga de modo provocador com as nossas precárias percepções sobre o cadafalso onírico, onde os elementos que nos parecem não são e nem podem ser tal como se apresentam. Amanda mantém o pseudoconfidente blog joana, a louca de flandres. Lá você vai poder ler depoimentos de uma personagem construída de modo muito refinado, que reflete indecisivamente a personagem da vida real. O melhor desses textos fica por conta do olhar que capta no banal das coisas sua futilidade e devolve com ironia sarcástica o frágil retroz com que é cosida as convenções idiotas que recobrem as desvios pessoais e coletivos.

Deixei quatro poemas que parecem dispersos diante do tema proposto. Ao menos sinto o fragor do éter, ainda que de modo diverso, em cada um. Rosto oculto é o primeiro excerto de um poema maior chamado "Rostos". Rostos escapam em muitos dos nossos sonhos, e não nos lembramos com correção de alguém com quem tivemos relações divagantes, não precisando o grau que atingiu essa quase interação. A sombra pode se referir ao efeito que fica após um sonho. O sonho não é a nossa realidade, mas uma correspondência específica e que precisa ser compreendida dentro de certos limites. Como a sombra, os sonhos sempre nos acompanham e nos refletem de algum modo. No poema Bushiana manifesta-se o resíduo que um evento que se torna sentimento de impotência, talvez aparentado com a compreensão desiludida e quixoteana (isso mesmo, não é quixotesca) de quem percebe que algo mais forte derrubou suas utopias. É incrível como as utopias caíram nos últimos tempos e como não existem quase perspectivas de que outras se levantem. Finalmente, Breviário noturno remete a sonhos que se sonham mesmo acordado. A noite em claro não impediu o diálogo com o sonho, que se impôs contra um notívago eventual. Ainda bem. Sonhos são fortes e mal faz quem os despreza. Mesmo que você não seja daqueles que se entregam aos devaneios – e ninguém o faz impunemente – procure respeitar e compreender, na medida do possível, o que dizem seus sonhos.

Aproveito para dizer que Cesária Évora não canta apenas, mas traduz e encarna todo o sentimento, chamado morabeza, que define e especifica o sentido de ser de Cabo Verde. Sua voz agita aos sentimentos como o mar balança-se no dia-a-dia desse fascinante arquipélago africano.

Indico aqui o blog do meu colega Rodrigo Borges, o estado de circo, que completou um ano na net. Traz comentários pertinentes de notícias nem tão pertinentes. Informa e entrete de modo inteligente quem lê seus posts. O Rodrigo integra também a banda 4Free, que tem até comunidade no orkut.

Bem, para postar tudo isso, perdi uma noite de sono, e talvez um ou outro sonho. Boa leitura!