Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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sexta-feira, 20 de julho de 2007

Adoniran, um mito de SP

Admiro o samba paulistano. Adoniran Barbosa, além de sua genialidade, consagrou um estilo tão simples, oposto ao rebuscamento no trato com a palavra, composto pela fala nua, com todas as suas trocas fonéticas: Ernesto/Arnesto, fomos/fumo etc.

Desse modo, manifesta o modo despojado e direto que essa cidade reclama aos seus moradores. A riqueza cultural de SP passa por esse samba que retrata as dores que moram de aluguel no peito do paulistano.







Há uma importância singular e didática nessa manifestação cultural. Ela ensina a admirar e amar uma cidade repleta de contradições, a qual reúne no mesmo instante o luxo e o lixo, a linguagem sofisticada da poesia concretista e a popular do samba, o megaempresário e o camelô, o ódio e o amor. O paulistano samba e contempla, ri e geme, vive e morre no samba de São Paulo.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Istambul, terra cindida de Sezen e Gencebay

A coroa portuguesa, em épocas dantescas, proibia na Terra de Santa Cruz a divulgação de idéias, a circulação de jornais ou qualquer material impresso, pois temia a organização do povo tropical, desejando, quem sabe, a sua emancipação.

Efetuou um eficiente processo de aniquilamento das ameaças. Quando, ainda, na província de Piratininga, falava-se não o idioma português, mas uma língua geral, híbrida, e com maior influência do guarani, havia uma espécie de logofobia em relação aos indígenas, que levou a coroa a persegui-los até a lalocepção de outras manifestações lingüísticas que não a européia.
O brasileiro, caso esse processo não tivesse chegado ao fim, poderia ser um povo bilingüe, o que acrescentaria em muito a nossa cultura já rica devido a outros a processos.

A bem menos tempo, na década de 1980, foi editada uma lei na Turquia que proibia manifestações lingüísticas em outras línguas locais que não o turco. Isto significou que na Turquia podia se expressar em turco, inglês, francês, alemão e até em português, mas não, por exemplo, em curdo, língua falada por cerca de 15 a 20 milhões de pessoas só na Turquia, ou outras línguas locais, como o circassiano. Esta nefasta proibição durou pouco mais de dez anos, sendo revogada nos anos 90. Durante o período de vigência, alguns cantores não podiam gravar um disco em sua língua, por exemplo. Essa situação, entre outras, influenciou a música na Turquia em seu principal traço, sua constante tristeza.

O filme "Atravessando a ponte – o som de Istambul" (review 1, review 2) é um bom documentário, que apresenta os retratos obtidos pelo cineasta alemão de origem turca Fatih Akin sobre a rica e diversificada cultura musical de uma cidade grande, antiga e repleta de oposições. Istambul é cindida entre Europa e Ásia, tradicional e moderno, maioria pobre e minoria rica etc., e o estreito de Bósforo (foto), assim como as ruas da cidade e sua diversidade musical, é o símbolo maior do entrechoque e cruzamento dessas oposições.


Os momentos mais interessantes do documentário enfocam a relação da música com a cultura turca e a inserção de novos domínios culturais em uma sociedade de maioria muçulmana, que coexiste, não só geograficamente, mas, sobretudo, na margem de duas civilizações e sistemas culturais, o Oriente e o Ocidente, com todas as suas resistências e seus múltiplos apelos. E, como o Bósforo, entre os dois continentes, à tarde, é calmo e fascinante, Istambul quer ser uma cidade de todos os povos, músicas e culturas, sem que com isso tenha de haver necessariamente uma segregação étnica e cultural.



Esta parte do filme (acima) retrata um animado encontro em cidade de maioria de origem romena, próxima a Istambul, no qual excelentes músicos tocam de modo muito informal, enquanto seus ouvintes se esborracham de tanto beber chope. Fica evidente a alegria dançante da música romena em contraste à triste melancolia da música turca.

Dois importantes músicos da Turquia, entre outros presentes no documentário, são o instrumentista, cantor e ator Orhan Gencebay e a cantora Sezen Aksu.



Gencebay é de origem árabe, chegou a Istambul com seu saz, instrumento de cordas típico e, segundo ele, com o qual compôs todas as suas músicas e é seu confidente. Gencebay é uma legenda na Turquia. Estrelou inúmeros filmes, fazendo o papel de galã ou herói, possui dezenas de discos e é o cantor das massas. Confira acima um pouco de seu talento.



Já Sezen é a preferida dos jovens, possui uma voz limpa e há mais de vinte anos é a cantora de maior sucesso na Turquia, prestigiada pelas mocinhas apaixonadas e pelos novos rappers que invadem o ambiente musical de Istambul. Sezen já carrega fortes traços da ocidentalização cultural, que avança sobre o território cultural árabe, dominante na capital turca. Veja acima, em trecho do filme, recortado de imagens carregadas de sofrimento, a performance da cantora de Istambul.

Recomendo, principalmente a quem é atento à cultura musical, que assista a este documentário, pois, além dos itens acima, ele é bem montado, tem trilha sonora de boa qualidade, diversidade cultural e não se limita à armadilha de restringir-se a esfera pop.


sábado, 21 de abril de 2007

A difícil arte de continuar




“Dança”


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Este vídeo de "Dança", composição de Chico César, originalmente no álbum Mama Mundi (1999), é gravação de sua participação especial em show de Badi Assad, paulista de São João da Boa Vista e uma das estrelas da MPB na atualidade, assim como o paraibano.


Badi Assad, como interpréte, transita com enorme competência pela diversidade de estilos da música brasileira, somando a suas performances seu gosto e influências que absorveu do jazz e dos blues.

Chico César é um grande compositor. Músicas como as recentes "Moer cana" e "1 valsa pra 3" calam com seus versos e melodia tristes da solidão. Voltando a uma das que mais sucesso tem feito, "Pensar em Você", de metro fácil e referindo-se a saudade e desejo que contornam a solidão, traduz o que são os pensamentos que suprem a ausência de alguém.

A solidão é um enfrentamento do ser exilado pelas diferenças no mundo, que o compositor também sabe contemplar como em "Dança".

Desse enfrentamento se é levado a buscar as identidades que nos configuram. Daí a força reivindicatória de suas canções que buscam em África, Amazônia, Agreste e no planeta todo ("Mundo") suas raízes alternativas àquilo que parecemos ser. "Aquidauana", "Mama África" e interpretações carregadas de sentimento em clássicos como "Cálice" (Gilberto Gil/Chico Buarque) se entrelaçam nessa imensa e diversa busca.

Podemos dizer que há uma poética (lançou recentemente Cantáteis, primeiro livro de poemas e projeto a ser musicado) que forma uma geografia do sentimento. Geografia na amplitude social e cultural que o termo exige, pois não há descrição euclidiana da terra, mas uma terra que nasce no anteparo do olhar reivindicatório de seu povo, seja índio, nordestino ou afro.

A difícil arte de continuar é um atributo presente em Chico César e Badi Assad (sobre quem trataremos mais a frente) no sentido que eles se inserem numa tradição rica e que não é nova, e que parecia esgotada. As canções de amor de Chico César não são "caretice ou romantismo brega", pois que ele é um dos poucos que puxou a corda precisa do melhor de nossa música em um momento que esse elemento estava frouxo. A tensão que ele empregou ajudou muitos novos e reais talentos e colabora para o bom momento que atravessa a MPB.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Blues intenso, luzes suaves.

>> neste artigo >>


NÃO DEIXE DE OUVIR




“Born Under A Bad Sign”


Neste post, o Canto do Caracol inicia mais duas seções, a lira do caracol e os cenários do caracol. Nesta, voltada à fotografia, em cada uma das 12 exposições captadas por Andrei Barros (maxMODE ®) percebe-se seu interesse pelos jogos de luz e pelos movimentos de ascensão e queda sugeridos pelas imagens através dos reflexos de luz. Naquela, música, compositores e intérpretes serão relacionados com o valor de sua arte, seu impacto e o modo como se relacionam com seus admiradores e críticos. Em sua estréia, Daniel Peres traz-nos a legendária figura de Albert King, um dos três grandes do blues.

Além das estréias, há mais um poema postado, Vaidade da vida , que, quanto à forma, é um palíndromo perfeito – pode ser lido do início ao fim e do fim ao início que mantém as mesmas palavras. Alguns palíndromos são imperfeitos, na verdade são apenas quiasmos. O palíndromo deve, a rigor, ser lido inversamente sem alterar em nada o conteúdo que foi lido na ordem usual.

Alteramos um pouco nossa apresentação. A partir de agora, o não deixe de ouvir estará incorporado aos posts, assim os que desejarem poderão rever as músicas preferidas. Também foi colocado ao lado o menu com os sites ligados ao canto do caracol – No fim, tudo são caracóis. Isso facilita o "trânsito" entre as partes do canto do caracol.

A você que lê o canto do caracol, uma boa leitura. E não se esqueça de deixar um comentário aos nossos posts, seja de apoio ou crítica ao nosso trabalho.