Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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sábado, 25 de julho de 2009

Caderno de receita

Olho pra a mesinha de centro
– Um caderno. De quem seria?
Não o reconheço, por certo,
mas foi de mulher um dia

A capa de camurça vermelha,
pouco rasgada, muito rabisco,
tem colada uma figura pequena
de guloseima e outro petisco

Abri na primeira folha, manchada,
sua leitura me agarrou curioso
e lancou-me do tempo à distância

do que escrito por mão delicada
a receita dum pão delicioso
e mais gostosuras da infância





sábado, 10 de maio de 2008

Retornos

as águas do rio
sem dar aviso
chegam ao mar,
mas fogem d'oceano
na evapotranspiração
retorno indiviso
a nuvem formar
as gotas flutuam
após se despejam
e umidecem o chão
chamam o homem
de volta aonde
semeou cada grão
o mínimo rebenta
alimento à vida
qual cresce e carrega
o peso da lida
é senda
e insinuação
um dia deixa a vida a vida
e evapotranspira
retorno diviso
porém sem aviso
ao pó, seco grão

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Menina da Lata

Na mesma e sempre dura hora,
nunca se demora,
madrugadora,
a filha de Dora, agora,
barriga de fora, mãos ainda suaves e um olhar onde explode tristeza
e esconde sua vertiginosa beleza,
na vida ingrata vem catando lata numa luta tola.
Natália cata latinha
pra mais tarde comê farinha
e meia salsicha se sobrar.
Vem batendo latinha com latinha,
de coca, guaraná.
Seu saco negro é um grande chocalho,
balaio de tensões intraduzíveis:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá,
balançando lentamente o barulho de lata amassada,
alumínio mínimo da vida que passa,
que amassa
latinha
e amassa
Natália, a menina.
O homem da lata com fã mirim

Foto: Rodrigues Moura/ECOPOP

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Mostarda

Conheci
no fundo molhado dos seus olhos
um fio de esperança cobreado.
Era um tipo de alegria.

Seu olhar ainda refletia
uma queixa antiga e esparramada
e pousou detidamente
naquela mancha de mostarda.
Ela interrompia uma listra
da minha camisa col à l'italienne.

O tempero caiu amarelo e úmido
quando você esmagava
sua metade de pão
durante o beijo faminto.

* Pintura: Sigmar Polke, Measuring Clothes (1994)

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Das mãos

Silvio Lourenço, em 9/6/2007



Com sangue escorrendo
de minhas mãos
amanheço escrevendo
esse poema.
De vermelho
pintando um coração
e rubra rosa
manchando essa pena.

As manchas
escorrendo até o chão
duas poças embaciadas
num dilema.
Dois amores
embatendo-se pelo pão
e rubro cálice
vertendo nesta cena.