Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Rosa faltante


O amor na realidade é o que me dói
não havia nesse campo flor alguma
nem campo havia
mesmo assim achastes encanto

Sinto saudades, saudades de tudo,
e sem argumentos falo do coração,
essa coisa que sempre tem uma coisa de menos
onde é difícil de entrar, e só o podeis com carinhos.
Nele é impossível chegar com pancadas,
ou morar sem sonhos.
Porém, se entrardes e depois sairdes, deixareis bem mais do que trouxestes.

Procurais a porta, mas não vedes fresta, nenhuma frincha,
e sem elas o coração apodrece.
Agarrai esse suave fio de luz
para com ele atravessardes as grossas paredes.
Nessa lâmina tão frágil, que não se distingue
se é luar ou o resto de um sol quase morto, intimidado,
podereis mergulhar no abismo pulsante de amor, mentiras, medos e morte.

Nesse instante percebo a rosa,
tenho-a infinitamente,
sim, tenho esta flor
num coração de pedra esfalfado.
Nele surge um império de desconfianças
cujas cores iluminam este sertão
onde cultivo minha personalidade
para não morrer antes da morte senhora.
Tento não me perder.
Tento cultivar-vos.
Tento ganhar a rosa das minhas saudades.

Sinto saudades.
Saudades imensas, generosas, saudades de tudo.



sexta-feira, 24 de abril de 2009

Amarelinha


Tem céu,
tem também inferno.

A pedrinha,
lançada com fé
procura o céu
mas uma geografia perversa (parece que o Coisa-Ruim trama isso)
faz o inferno alargar
e por um largo pequeníssimo
cai o sortilégio
um pouco pra lá de onde deveria.

Aí a gente tem que pular
os pedaços marcados
coisas lindas e desejos gozosos
quedam ao lado.

Há uma pedra,
sim,
que a lançadeira tem por dever de obrigação recuperar.

O poema parece amarelinha
se jogar a palavra uma vez ou duas
longe do céu desejado, encanto não há.

Palavra-pedrinha,
o poeta tem fé que ela cumpra uma sorte,
se o poema não é de todo agrado,
pula o de que não goste,
lê só o desejado.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Esquina da Alegria Ausente

Quem chegará
incólume
à esquina da alegria ausente
se todo ano é carnaval?
Cada passo
deixa uma força na avenida
De cada sorriso
vejo um arremedo
do que não é o folião
espatifando. No chão
pisado percebe-se
as iras magoadas
largadas em meio aos repiques
durante os quatro dias
no caminho da esquina
ausente de alegrias.
Quarta-feira é dia
e todas elas se levantam
ajuntam amigas
e correm buscar
seus legítimos donos,
alguns caídos na esquina da alegria ausente,
a última do desfile.
Os rancores nem passam
na candelária encontrar
peito que os abrigue.


quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Menina da Lata

Na mesma e sempre dura hora,
nunca se demora,
madrugadora,
a filha de Dora, agora,
barriga de fora, mãos ainda suaves e um olhar onde explode tristeza
e esconde sua vertiginosa beleza,
na vida ingrata vem catando lata numa luta tola.
Natália cata latinha
pra mais tarde comê farinha
e meia salsicha se sobrar.
Vem batendo latinha com latinha,
de coca, guaraná.
Seu saco negro é um grande chocalho,
balaio de tensões intraduzíveis:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá,
balançando lentamente o barulho de lata amassada,
alumínio mínimo da vida que passa,
que amassa
latinha
e amassa
Natália, a menina.
O homem da lata com fã mirim

Foto: Rodrigues Moura/ECOPOP

sábado, 29 de setembro de 2007

A Nave de Lala

Lala estava pronta
mas como saber?
vinha de manso
por conta de erros acertados
em meio a berros
dados sem conta de certa de erros havidos
mas ela sabia
do momento
mês hora e dia
de consertar não sabidos erros
de três outros errados
zeros apanhados ao incerto
e vento esperto primaveril
refregou os pensamentos
culpáveis
estatelando suas manhas
na tardia manhã setembrina
lá estava Lala
sibilina
lá
desbordejando
na querência de quê
aí abandonou a nave
veio estar conosco
não nos conhecia
foi bem recebida
fora a estranheza do mundo tão vasto
como nunca havia
sido a nave
apertada mas suave
útero maternal
ela semente ali abrochada
e hoje esquecida a paquete
borbotoa Lala lis no flux
remendado da vida
regato em que medra e oscila.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Pensaréu

Não sou eu quem pensa o pensamento
mas o pensamento pensa
tudo quanto penso eu
em meu eu nesse momento e
visitam esse pensamento
as visões reinantes
dos poucos maus instantes
em que pensei que pensava eu
mas me pensava o pensamento
e o eu que me pensava agora
penso eu que nunca foi o meu.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A flor e a pedra

Havia uma flor em sua mão
mas pedra em seu olhar,

rocha úmida,
lavada
no rebate de ondas daquela tristeza feroz.
Pôs a flor acima desse mar.
A lis pairava em seu cabelo como estrela única em noite escura.
Ela sorria. Ato nervoso que lhe era o manto possível no recobrimento de mágoas.
Muitas havia como a areia,
que impiedosamente é coberta pelo véu das ondas na praia.
Sorria assim. Misteriosa, nervosa e freqüentemente sorria.
Percebeu na flor debilidade, porém havia beleza.
Quis fragilizar-se, mas era ainda rocha.
Quanto mais lavava de sorrisos nervosos o seu olhar, mais o sentia se enegrecer de incrustações.
A flor foi perdendo o sentido de ficar ali,
pois não podia viver naquela rigidez
que aumentava a cada sorrir.
Até se desgarrar e ser levada para longe
pelas ondas que a rebotavam sobre seu úmido olhar.


Foto: Mutilação 2, de Manuel Gonçalves