Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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sábado, 25 de julho de 2009

Caderno de receita

Olho pra a mesinha de centro
– Um caderno. De quem seria?
Não o reconheço, por certo,
mas foi de mulher um dia

A capa de camurça vermelha,
pouco rasgada, muito rabisco,
tem colada uma figura pequena
de guloseima e outro petisco

Abri na primeira folha, manchada,
sua leitura me agarrou curioso
e lancou-me do tempo à distância

do que escrito por mão delicada
a receita dum pão delicioso
e mais gostosuras da infância





sábado, 23 de maio de 2009

Breviário Noturno

I

Morcegos mexem mandíbulas
no sótão
guincham de gozo

II

Paredes desbotam
pombas desbotam
pombos jamais
no desbotar do dia
botas batem nas ruas batidas: téqui-téqui-téqui-téqui
alguém corre a bater o cartão
o poeta bate letras olivetti

palavras desbotam


III

Não
e nada aqui
tendo o nada
nada tenho
longe amigos
a mente amola o longe

A memória é lata de lixo
melhor esvaziar que vira moléstia

mil voltas,
salto linhas...

De novo nadas


IV

A solidão noturna é forçada
guinchos de morcegos,
cantos de galos,
gritos de gatos,
arrulhos de pombos
são nós na noite
e nada nem coisa nenhuma se faz natural


V

Esqueço calças
rezo preces esquisitas
parecem guizos de cascavel






Escrevo novo apocalipse
crivado de lapsos
apoucado de símbolos

Aqueço e enxugo gelo
suco seco
o sol separa as noites

Pétalas de uma flor
pretas, pratas, lilases
fios tinturados nas faces

Duas moedas mínimas
dois cêntimos apenas
Deus deu o troco e ficou



O menino desenhando o alfabeto
as letras crescem
criam peixes e meninos

A máquina faz barulho
o aparelho do silêncio
está com defeito

Pílulas, papéis, problemas
passas secas ao sol
nos cabelos passa pente de osso

Pássaro poetando no ar
peixe poetando no mar
uma pedra partiu o poeta


VI

Exílio da noite – sol
exílio da solidão – vênus
exílio da flor – pedra
exílio do tempo – amanhã
exílio da alegria – perda
exílio da velhice – infância
exílio da humanidade – deus
exílio de mim – outro


VII

A moça tem uma boca
a boca da moça tem dentes
massageiam mensagens
musgadas


VIII

O amanhecer já é incógnita
cada aurora engana sua noite
nas frinchas se enfaixam feixes iluminados
as ruas são suas ruínas
as cirandas infantis tornam-se sérias
carros rangem de carroças
mercancias desinteressam
num castelo penitenciário
os condenados glosam poemas
como príncipes devaneiam

o mato meteu a morada oculta
suas pontas causam cócegas
nas portas




IX

Água de chuva fez suco de bosta de morcego
se acumula no assoalho
lagartixas brancas brecam velhas moscas verdes

Papéis na mesa e girassóis fora
palavras não penetram os papéis às vezes
então colemos palavras lisas


X

O tempo se tapou
nimbos são tampas
devolvem rios em gotas
bátegas escorrem azuladas na vidraça
retratam tipos post-mortem
surgem epitáfios
poemas de remorsos
pústulas mapeiam e adensam paredes da última morada


XI

Vênus vigia a avenida
transitam estrelas
na trilha cinzelada do caos
estrelas se caiaram de cinzas
Vênus se vê irritada
acende-se no cinza


XII

O pavio queimou inteiro
esqueçam o que se foi
esqueçam a casa
esqueçam a cama
esqueçam a criança
e o estado fetal

A aurora corrompeu a madrugada infensa
esqueçam a noite
esqueçam morangos
esqueçam seios nas mãos
esqueçam cantos
e lençóis

A chuva despediu-se da moça
esqueçam a arca
esqueçam os primatas
esqueçam o plâncton
esqueçam o sopro
e o barro

As imagens também se esfarelam
esqueçam suas flores
esqueçam suas pedras
esqueçam suas borboletas
esqueçam suas ilhas
até que a dor resgate nossas lembranças


XIII

Negaram o existir da natureza
busco imagens na própria ignorância
realizo pássaros que amamentam seus filhotes
meus sapos voam solenemente
ancorados em altos telhados
contemplam os girassóis azuis
no dia que o céu tingiu-se de verde
o mar amarelou-se de medo
e os peixes pescavam homens

Minha sopa tem gengivas brancas
e madeixas de medusa
despréstimos da ilusão

Os homens querem conhecer como árvores
arvoram ignorância por saber
árvores riem e roncam ao vento
murmurador
de nossos devaneios às anciãs silvestres
elas sabem coisas remotas
seus enigmas confundem
sua dor é imensa
dor é uma coisa de quem não se presta a morrer


XIV

Faltaram feições
ficou a frieza férrea
a feiúra a fenecer
um festim de facas

Essas facas cegas
ao tempo resistem
as noites cortam os dias
retalhando-os em lanços





Os perfumes das pétalas
pruridos ficaram
nas pisadas descalços
sangram os pés nos espinhos

As moças não sabem as danças
músicas moram maçantes
doces regalam velhas moscas
que no festim fitam as mesmas máscaras

FIM do breviário.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Céu de Maio


já desmaia
o céu de maio
silencioso e mais
íntimo se mostra
em um átimo de massa

a cor do céu
vislumbra vermelho
maquiagem cósmica
veste o vestido negro
vergado de luzes laminais

a medida desse céu
não se toma de metro
mas é tomada
pela música do
baile de marina

a luz desse céu
é de miçangas
piscam com as moças
e se espelham
nas poças

não chora o céu
maio seca a fonte
assola o lenho
resseca as ramas
ramais de fogo

machuca esse céu
lâmina amolada
amor amaro
música muda
discurso do não

céu de contradição
Foto: Andrei Barros

sábado, 13 de setembro de 2008

banco de areia

em meio ao mar concreto

anil da mais alta vidraça

reflete a insolente mistura

branca e acre do banco de areia


no pulso um olhar perplexo

contando horas esvaídas

pés lépidos espalham brancura

fina de grãos esparsos de areia


a barra da sarja avante carrega

do saibro a silica escondida

fase prima do banco de areia


e tanta poeira dali removida

com grãos mais de fina finura

reflete no céu o pó que permeia


a vida fincada num banco de areia

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Medida


Não gosto desses versos compridos
como se a vida não fosse cumprida
prefiro a palavra ligeira
e o tom de brincadeira
que a vaidade delongada
de sisudo estribilho
que de tudo que se diga
nada diz a vida
em ávida fogueira
de todo consumida
na contagem desses dias
bem poucos mal cumpridos
um resto que se viva

terça-feira, 24 de junho de 2008

sonetod'encontro

certoq'vaim'encontrarvivo
indaq'nãopo'saberquando
nentenha'parentemotivo
daq'por'el'abandon'amando
intim'amigadesconhecida
'quempoucosvãod'vontad'boa
deladistan'desperdiçan'vida
sen'vê'l'ajulgampormá'pessoa
'suacas'está'sempr'aberta
co'aposento'vag'aosentrantes
q'alifican'seustempos'restantes
conten'dostratosq'l'oferta
nãofogen'convivasdes'fado
'encontr'en'q'avidapõen'd'lado

sábado, 10 de maio de 2008

Retornos

as águas do rio
sem dar aviso
chegam ao mar,
mas fogem d'oceano
na evapotranspiração
retorno indiviso
a nuvem formar
as gotas flutuam
após se despejam
e umidecem o chão
chamam o homem
de volta aonde
semeou cada grão
o mínimo rebenta
alimento à vida
qual cresce e carrega
o peso da lida
é senda
e insinuação
um dia deixa a vida a vida
e evapotranspira
retorno diviso
porém sem aviso
ao pó, seco grão

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Menina da Lata

Na mesma e sempre dura hora,
nunca se demora,
madrugadora,
a filha de Dora, agora,
barriga de fora, mãos ainda suaves e um olhar onde explode tristeza
e esconde sua vertiginosa beleza,
na vida ingrata vem catando lata numa luta tola.
Natália cata latinha
pra mais tarde comê farinha
e meia salsicha se sobrar.
Vem batendo latinha com latinha,
de coca, guaraná.
Seu saco negro é um grande chocalho,
balaio de tensões intraduzíveis:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá,
balançando lentamente o barulho de lata amassada,
alumínio mínimo da vida que passa,
que amassa
latinha
e amassa
Natália, a menina.
O homem da lata com fã mirim

Foto: Rodrigues Moura/ECOPOP

sábado, 29 de setembro de 2007

A Nave de Lala

Lala estava pronta
mas como saber?
vinha de manso
por conta de erros acertados
em meio a berros
dados sem conta de certa de erros havidos
mas ela sabia
do momento
mês hora e dia
de consertar não sabidos erros
de três outros errados
zeros apanhados ao incerto
e vento esperto primaveril
refregou os pensamentos
culpáveis
estatelando suas manhas
na tardia manhã setembrina
lá estava Lala
sibilina

desbordejando
na querência de quê
aí abandonou a nave
veio estar conosco
não nos conhecia
foi bem recebida
fora a estranheza do mundo tão vasto
como nunca havia
sido a nave
apertada mas suave
útero maternal
ela semente ali abrochada
e hoje esquecida a paquete
borbotoa Lala lis no flux
remendado da vida
regato em que medra e oscila.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Historieta

Colher palavras
para contar
uma espécie de dor.
Escolher um tema
com que mostrar
belas cenas de horror.
Fugir do problema
e adentrar na guerra
em busca da paz.
Saltar o mundo
e permanecer
em estreito lugar.
Perder a vista
e enxergar
a face da escuridão.
Dançar a música
que um dia jamais
pudesse ser tocada.
Gritar gemidos
que somente se ouvem
no vácuo inconsciente.
Plantar no jardim
estéril semente
e ignorar da árvore a solidão.
Comprar supérfluas utilidades
e apaziguar
a cupidez insaciável.
Enfim nascer
como primeiro ato
da historieta de morte.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Desdesejo

Desejar, sentir desejo
aumentar o desejo sentido
então desejar mesmo
o fim do sentimento
o infinito momento
de depurar o desejo
desejar poder depurar
o desejo de seus riscos
sentir desejo sem riscos
arriscar-se a não ter desejos
agravar a íntima fonte
de desejar para calar
os anseios implícitos,
os mais fortes desejos,
matar a sede de matar,
não suprir, suprimir
na própria fonte do desejar
angustiando o desejo
de toda forma de desejar
até o desejo não poder
ser mais o desejo senão
o desejo de versejar.
.
.
Imagem: fac-símile de "A Palavra", CDA.

sábado, 4 de agosto de 2007

SOL-lilóquio


por Silvio Lourenço, setembro 2006.


Esse Sol corta essas noites
insuaves. Atrás atravessa
sem-pressa pelas praças,
do pão leveda as massas
e das moças mostra as graças.

Esse Sol indesperto madruga
moços cansados de amar,
missas de massas moventes,
desdorme trens nos dormentes,
descama o homem, o mar.

Ah, esse Sol aquece a pele,
queima toda epiderme –
perece a carne pelo verme –
desamanhece no poente
e foge desvisto da gente.

Nesse Sol sem-céu sumido,
você sem-eu-ciumado
desassoma cor-dia nublado.
Se sumo desinfeliz amando
no mundo não-sendo amado.


Foto: Andrei Barros, "Chuva, Sol e céu", em

terça-feira, 10 de julho de 2007

Hobsbawm

por Silvio Lourenço, 10/7/2007

Mal.
Começam os atos assim.
Mil triunfos
trituram ratos,
brinca a ciência natural.

Imprevistos triunfam
em mil tragédias
cada uma oferece
duzentos mil sacrifícios.

Esquisito haver esperança
misto à inquietação.

Observam através do orifício dessa última porta.

Quem alcançou a saída para nos ver?

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Morada do Tempo

Silvio Lourenço, em 8/6/2007.
Gravura: Vitor Henrique

Quando os segundos
nos minutos moram,
breves minutos se demoram.

E se os segundos
moram na hora,
ainda maior a demora.

Se nós humanos contamos
não as horas, mas o dia,
fica maior a agonia.

Se quem espera,
de contar as horas
um momento se ausentar,
ganharia muitas horas
e poderia ler
ou, quem sabe, até sonhar.

Leria este poema
e se esqueceria de todo problema,
as horas até perderia,
minutos não contaria,
e cada segundo gostaria
que eterno fosse
e se demorasse
e jamais passasse.

O fim do ano chegando,
muito tempo saiu ganhando
com o trabalho fundindo ao gozo
e o gozo à espera
de um tempo novo,
uma nova era,
em que despreocupados todos do Tempo,
este deixaria de ser tormento
e seria fiel aliado
em esforço conjugado,
então, todos, sem exceção, seriam sempre esta criança...
ou aquela
ou uma outra
segurando um relógio como mera fotografia
ou uma ampulheta como brinquedo
construindo uma morada para o Tempo se abrigar,
o Tempo, que teimosamente foge do ócio.

Por isso, quem tem pouco tempo,
sempre diz que tem um negócio,
e não pode mais ficar.