Epígrafe Provisória

"Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito" - Juraildes da Cruz

Sons de sim – "Enfeites de cabocla"

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quarta-feira, 21 de março de 2007

Éter

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Aproximadamente um terço de todo o nosso tempo passamos dormindo. Esse período, longe de ser perdido, é bastante fértil aos sonhos. Não sei explicar esses fenômenos de pouca definição. Se bem me parece, Freud deu razões da ocorrência dos sonhos e até explicou algumas tipificações, porém não pôde nem de longe resolver todas as especulações que surgem em torno desta fantástica realidade.

A nossa miséria é que os sonhos têm o poder de nos perturbar. Quando intensos demais, provocam um delírio fremilúcilo, no qual vislumbramos sombras e dissipações.

Muitas das vezes os sonhos não retornam. Abandonando-nos, deixam-nos sem razões para a razão. Considero o sonho par da arte e da religião, mães mais férteis das visões oníricas. Dante, em A Divina Comédia, arquitetou os sonhos mais terríficos que o ser humano já sofreu, fruto do descompasso entre o paraíso desejado e o inferno que se assenhora do viajor e o envolve em espessa treva: "Nel mezzo del cammin di nostra vita/ mi ritrovai per una selva oscura/ ché la diritta via era smarrita". Cervantes fez da utopia do tradicional mundo cavaleiresco o sonho e a ruína de Dom Quixote, cuja trajetória, embalada por ideais ultrapassados que sistematicamente foram descartados pela realidade moderna, levou-o a sucumbir sem jamais poder desfrutar de seus ideais, a não ser nos momentos – e foram tantos – de entrega aos seus devaneios. Mas se o sonho confunde-se com loucura, tratamos de negá-lo em algum momento:

"-Perdóname, amigo, de la ocasión que te he dado de parecer loco como yo, haciéndote caer en el error en que yo he caído, de que hubo y hay caballeros andantes en el mundo."

É nos sonhos que encontramos o nosso eu mais primitivo e ao mesmo tempo nos perdemos totalmente em relação ao mundo de ditames que nos enlaça cotidianamente. Quem se lança ávido nessa diretriz possivelmente não colherá aquilo que busca, exceto a própria busca.

Minha amiga e incisiva cronista Amanda Osti deixou-nos o conto Pó-de-arroz, que dialoga de modo provocador com as nossas precárias percepções sobre o cadafalso onírico, onde os elementos que nos parecem não são e nem podem ser tal como se apresentam. Amanda mantém o pseudoconfidente blog joana, a louca de flandres. Lá você vai poder ler depoimentos de uma personagem construída de modo muito refinado, que reflete indecisivamente a personagem da vida real. O melhor desses textos fica por conta do olhar que capta no banal das coisas sua futilidade e devolve com ironia sarcástica o frágil retroz com que é cosida as convenções idiotas que recobrem as desvios pessoais e coletivos.

Deixei quatro poemas que parecem dispersos diante do tema proposto. Ao menos sinto o fragor do éter, ainda que de modo diverso, em cada um. Rosto oculto é o primeiro excerto de um poema maior chamado "Rostos". Rostos escapam em muitos dos nossos sonhos, e não nos lembramos com correção de alguém com quem tivemos relações divagantes, não precisando o grau que atingiu essa quase interação. A sombra pode se referir ao efeito que fica após um sonho. O sonho não é a nossa realidade, mas uma correspondência específica e que precisa ser compreendida dentro de certos limites. Como a sombra, os sonhos sempre nos acompanham e nos refletem de algum modo. No poema Bushiana manifesta-se o resíduo que um evento que se torna sentimento de impotência, talvez aparentado com a compreensão desiludida e quixoteana (isso mesmo, não é quixotesca) de quem percebe que algo mais forte derrubou suas utopias. É incrível como as utopias caíram nos últimos tempos e como não existem quase perspectivas de que outras se levantem. Finalmente, Breviário noturno remete a sonhos que se sonham mesmo acordado. A noite em claro não impediu o diálogo com o sonho, que se impôs contra um notívago eventual. Ainda bem. Sonhos são fortes e mal faz quem os despreza. Mesmo que você não seja daqueles que se entregam aos devaneios – e ninguém o faz impunemente – procure respeitar e compreender, na medida do possível, o que dizem seus sonhos.

Aproveito para dizer que Cesária Évora não canta apenas, mas traduz e encarna todo o sentimento, chamado morabeza, que define e especifica o sentido de ser de Cabo Verde. Sua voz agita aos sentimentos como o mar balança-se no dia-a-dia desse fascinante arquipélago africano.

Indico aqui o blog do meu colega Rodrigo Borges, o estado de circo, que completou um ano na net. Traz comentários pertinentes de notícias nem tão pertinentes. Informa e entrete de modo inteligente quem lê seus posts. O Rodrigo integra também a banda 4Free, que tem até comunidade no orkut.

Bem, para postar tudo isso, perdi uma noite de sono, e talvez um ou outro sonho. Boa leitura!

quinta-feira, 8 de março de 2007

Inquietações

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Neste post curto gostaria apenas de comentar alguns dos links relacionados no canto do caracol.

O sem cesura é o novo blog do Marcio Cenzi, cheio de poemas e contos breves muito instigantes.

O prof. Paulo Trevisan mantém o observações sobre arte, blog dedicado às artes visuais, sobretudo escultura, pintura e fotografia.

Mais recente, o ideafixa é uma revista de arte multimídia cuja proposta abrange o que há de mais atual em termos de arte na web. Reúne obras de artistas e designers já bastante conhecidos e outros nem tanto, todos, porém, de excelente nível artístico.

Também deixo o poema breviário noturno, em que palpitam diversas inquietações que transitam no decorrer de uma noite em claro.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Desilusões e Folguedos

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O carnaval passa a imagem de um tempo deslocado da realizade. Para muitos é como se se congelasse todas as desilusões tidas e vividas a fim de se dar lugar aos folguedos próprios dessa época.

Para não afirmar de-liberadamente (!) a grotesca contradição que a sociedade, carreada pela mídia, encena, esboçarei pleonasticamente que olhamos para a dupla face de uma mesma moeda. Que relações há entre a desilusão que viceja e toma conta do sentimento de grande parte das pessoas pensantes, que têm, no mínimo, enorme dificuldade em assimilar a brutalidade e torpeza de fatos como o assassinato do garoto João Hélio, a tragédia da linha 4 do metrô de SP, a queda do boeing da Gol do vôo 1907, mensalões e etc, com a evidente apatia (ou seria algum bloqueio psíquico) para com a realidade enquanto se dá lugar à lassidão catártica dos folguedos carnavalescos?

Ressalto neste espaço a lúcida opinião de minha colega Majô Casarotto, do jornal Destak, em 16/02/2007, para quem quase nada ou nada temos de festejar que justifique tanta alienação.

A arte tem o poder de representar tudo, não só o mundo dito real (existe?) como os mundos imaginados (e também reais porque realizados imageticamente). Assim, por um lado, O vendedor de tristezas estréia a seção contos do caracol, justamente em meio ao carnaval e sua propalada alegria. Será que ainda temos o direito de expressar tristeza e desilução, sobretudo em dias como estes? Esse conto é contribuição de Márcio Cenzi, que estréia no canto do caracol, de quem posso dizer com certeza que proporcionará grande deleite aos nossos leitores. Por outro lado, na seção poemas do caracol, você encontrará os poemas Pendente e Jazzinho I e II, estes com a rubrica de que nem tudo é desilusão...

menina da lata é uma indagação pela existência infantil deslocada de seu ideal lúdico, mas pleno de ternura, uma busca como de Oliver Twist.

Para obter acesso aos posts do conto e dos poemas, basta clicar nos links do texto. Boa leitura a todos!